Calma ai meu fio, acha que eu vou falar de política né? Te peguei, huehuehue.
Na verdade vou falar um pouquinho de política sim, então aguenta aí.
Então meus fio, ao que parece, a grande maioria das pessoas, (não só os americanos) bem como a gigantesca maior parte da mídia nacional e internacional ficou totalmente estupefata com o fato de Hillary Clinton, a santíssima velhinha sem defeitos (conforme veiculado pela mídia em geral até algumas semanas atrás) não só foi derrotada nas eleições, mas com significativa vantagem do emblemático candidato republicano, o infame Donald Trump.
Quando o resultados ficaram claros, vi muita gente por a mão na testa (tanto de forma figurativa quanto literal) e dizer coisas como "meu deus! como diabos isso pode ter acontecido!", "não é possível!", "é mentira!", "quero uma recontagem!", etc.
De fato, muita gente simplesmente se recusou a aceitar que isso tenha acontecido, o que na verdade não é nada surpreendente. É dar uma olhada em como eram as manchetes e as pesquisas eleitorais antes da eleição: praticamente todas apontavam uma vitória fácil e esmagadora de Clinton. Apresentadores de talk shows americanos faziam piadas dia e noite a fora sobre a candidatura de Trump, vista como uma piada e, na melhor das hipóteses, como uma catástrofe anunciada para o partido republicano.
Não vou te falar sobre toda a trajetória de Trump até ele se tornar um político, nem das específicas razões de Hillary ter perdido feio até em lugares em que o seu principal aliado, o atual Presidente Barack Obama, foi eleito não uma, mas duas vezes. E sim, eu sei que ela ganhou no voto popular, mas foi por uma margem proporcionalmente insignificante, e quem conhece bem o cenário político americano dos últimos 8 anos sabe bem que o fato de um candidato republicano ter vencido com tanta força é algo bem estranho (não se diz ou questiona que seja bom ou ruim).
Isso fica pra outro dia.
Ao invés disso, vou te falar de um problema muito maior.
Mas primeiro, preciso te falar da Prima.
Prima é uma garota normal.
Prima tem um pai e uma mãe.
Os pais de Prima gostam muito de burrinhos azuis, e assim, ensinaram sua filha a também gostar de burrinhos azuis.
Assim, Prima aprendeu desde pequena a gostar de burrinhos azuis. Prima acha que burrinhos azuis são a melhor coisa já inventada. De vez em quando Prima encontra uma pessoa ou outra que gosta de outras coisas, mas com a ajuda dos seus pais, Prima sempre continuou convencia de que burrinhos azuis são os melhores de todos os tempos.
Assim, prima vive uma vida normal adorando burrinhos azuis, até que ela entra na universidade.
Na universidade, Prima conhece 3 outras meninas: Secunda, Tertia e Quarta. Elas logo se tornam amigas muito próximas, saindo junto e se ajudando de toda forma.
Acontece que, nesse ano, o país de Prima, Secunda, Tertia e Quarta estava tendo um grande concurso nacional. O concurso é feito a cada 4 anos, e serve para nomear o melhor animal imaginário do país.
Prima, Secunda e Tertia gostam muito de burrinhos azuis, como a maior parte das pessoas que elas conhecem, e assim tem total confiança que os burrinhos azuis irão vencer, afinal todas as três tem famílias que adoram burrinhos azuis, e todos os seus amigos adoram burrinhos azuis.
Acontece que Quarta, ouvindo isso, revela que, na verdade, ela gosta mais de elefantinhos vermelhos.
Isso deixa Prima, Secunda e Tertia muito surpresas.
Vendo isso, Quarta explica que ela gosta de burrinhos azuis também, mas os burrinhos azuis tem vencido já faz 8 anos. Os elefantinhos vermelhos já ganharam varias vezes no passado, mas já faz bastante tempo, e Quarta acha que os elefantinhos vermelhos tem boas qualidades que podem ser legais, se elas derem uma chance à eles.
As outras três ficam muito putas com isso.
Prima diz que odeia elefantinhos vermelhos, e que os burrinhos azuis são os únicos animais imaginários que tem as qualidades necessárias para ganharem o concurso, e se eles tem ganhado os últimos concursos, é porque eles definitivamente são os melhores.
Secunda diz que os elefantinhos vermelhos deveriam ter vergonha de serem como são, e que sempre achou eles muito feios.
Tertia, por sua vez, diz que os elefantinhos vermelhos representam tudo o que é de pior na sociedade, e que jamais gostará deles.
Por fim, Quarta fica muito triste, mas mantém sua opinião, e pergunta se ainda pode ser amiga das outras 3.
Após uma pequena conversa, Prima diz que já teve amigos que gostavam de elefantinhos vermelhos, mas como ela os odeia, ela parou de conversar com esses amigos.
Secunda diz que, certa vez, uma pessoa que gostava de elefantinhos vermelhos lhe ofendeu muito, então ela nunca mais conversou com qualquer outra pessoa que gostasse de elefantinhos vermelhos.
Tertia diz que sua família tem algumas pessoas que gostam de elefantinhos vermelhos, mas ela diz que eles nunca a entenderam e a fizeram ficar triste, então ela foi morar com os tios, e evita qualquer pessoa que goste de elefantinhos vermelhos.
As três decidem que Quarta não pode mais ser sua amiga.
E assim, elas se separam.
A vida de Prima continua, e o ano também.
Prima fica triste de ter perdido sua amiga, mas Prima simplesmente não consegue imaginar-se sendo amiga de uma pessoa que gosta de elefantinhos vermelhos. Prima é confortada por Secunda e Tertia, e assim ela logo melhora e continua a sua vida.
Prima vai para casa e vê na televisão o andamento do concurso. Todos os maiores canais de notícias dizem que a vitória dos burrinhos azuis é praticamente certa.
Prima liga seu computador e acessa sua rede social favorita, e vê postagens e mais postagens de como os burrinhos azuis vencerão com muita vantagem e que são, sem nenhuma dúvida, a melhor escolha. Todos os amigos de Prima, tanto os de rede social quanto os da vida real, adoram burrinhos azuis, qualquer outra escolha parece não só absurda, mas burra.
Prima tenta imaginar o que fariam as pessoas escolherem elefantinhos vermelhos. Será que são loucos? Burros? Será que só escolhem os elefantinhos vermelhos porque tem inveja ou, pior, ódio dos burrinhos azuis?
Prima se convence de que essa deve ser a verdade. Prima se sente enojada de ter se associado a alguém que gosta de elefantinhos vermelhos.
No próximo dia, a pessoa que representa os burrinhos azuis diz, ao vivo, para uma platéia de milhares de pessoas, que as pessoas que gostam de elefantinhos vermelhos só podem ser "um monte de deploráveis".
As pessoas na televisão vibram com essa declaração. Prima respira fundo e se enche de convicção. Ela e seus amigos sempre estiveram certos, os burrinhos azuis são e sempre serão os melhores, e os elefantinhos vermelhos e os seus apoiadores são inimigos que não merecem sua atenção.
O dia da votação popular do concurso finalmente chega. Prima vai votar cheia de determinação, coloca seu voto na urna e volta para casa, onde seus amigos estão preparando uma comemoração para a inevitável vitória dos burrinhos azuis.
Os minutos passam, e os votos são contados.
Os elefantinhos vermelhos venceram.
Prima e seus amigos não acreditam. É impossível que isso tenha acontecido.
Todas as fontes de notícias que Prima viu diziam que a vitória dos burrinhos azuis era certa.
Todos os amigos de Prima estavam certos de que os burrinhos azuis venceriam.
As redes sociais de Prima fervilhavam com suporte aos burrinhos azuis.
Mas ainda assim, os elefantinhos vermelhos venceram.
Prima não acredita em nada disso, chama tudo isso de uma fraude. Diz que os elefantinhos vermelhos trapacearam, exige uma recontagem, se une a protestos contra os elefantinhos vermelhos. Afinal, no fundo de seu coração, Prima sabe que isso é uma impossibilidade.
Afinal, durante sua vida inteira, Prima só teve a sua volta pessoas que gostam de burrinhos azuis.
Ta bom, chega de retardisse, parei.
Acho que qualquer pessoa com mais de dois neurônios funcionando perceberam que isso tudo é uma analogia muito mal feita da eleição americana. Sim, intencionalmente mal feita, afinal, eu deixei de lado as características de cada candidato.
Isso é porque eu não estou falando das eleições, meus fios.
Estou falando de um fenômeno social conhecido como "echo chamber", ou "câmara de eco".
Mas tio, que porra é uma câmara de eco, e o que isso tem a ver com a eleição americana?
Câmara de eco é um fenômeno que acontece quando uma pessoa que tem uma certa ideia acaba, inconscientemente ou não, cercando-se de pessoas em seu círculo de família e amigos (digital ou real) que têm as mesmas idéias que ela, excluindo (de forma quase inconsciente) qualquer pessoa que pense de forma contrária ou ao menos diferente dela.
Isso cria um mini cosmos social que reafirma todas as idéias dessa pessoa, ao ponto que o mundo que ela enxerga parece ser majoritariamente formado por pessoas e conceitos que validam e encorajam tais ideias, o que por sua vez leva a pessoa a considerar essas ideias como uma verdade praticamente incontestável, ao ponto que isso sequestra o seu senso moral, vinculando a sua ideia do que é "bom" à essa ideia, e qualquer ideia contrária se torna, por definição, pior que o espirito do Hitler usando lingerie.
No exemplo acima, a câmara de eco foi mostrada como um fenômeno pessoal, experimentado através da perspectiva de uma única pessoa.
O problema, no entanto, é ainda maior, porque a câmara de eco pode se manifestar em grupos de pessoas, sendo esta a sua forma mais conhecida, porque é bem mais visível. A câmara de eco grupal acontece quando uma série de pessoas com uma câmara de eco pessoal (subjetiva), passam a criar uma câmara de eco coletiva (objetiva ou grupal). É daí que vem o termo "Câmara de Eco", pois é como se a pessoa, ao falar de suas ideias, apenas ouvisse sua própria voz novamente, pois nesse grupo todas as pessoas tem as mesmas ideias. Outras ideias são excluidas e nem ao menos consideradas, o que é algo potencialmente bem perigoso.
Você deve estar se perguntando "o que há de absurdo nisso? É bem comum que pessoas com ideias parecidas formem grupos". De fato, isso é normal, e boa parte das convicções políticas e algumas religiões de hoje são apenas enormes câmaras de eco, o que é problematico, porque desistimula a discussão e prejudica a formação de visões críticas e realistas, mas esse não é todo o problema.
A maior parte do problema surge quando a câmara de eco se forma em um grupo ou comunidade em que, originalmente, essas ideias não são compartilhadas por todos.
Quando uma câmara de eco surge em um grupo ou comunidade em que as ideias tidas por ela como "boas" não tem o suporte de todos, duas coisas acontecem, dependendo da parcela desse grupo que é dominada pela câmara de eco:
1-Se câmara de eco abrange apenas uma minoria no grupo maior em que ela existe, os integrantes da câmara de eco tornam-se mais avessos a interação com os outros membros do grupo maior, o que gera tensão social. Reconhecendo seu status de minoria, a câmara de eco tende a pensar em si como um tipo de elite intelectual, superior à maioria das pessoas (pois as outras pessoas não pensam como eles, e portanto são loucas ou burras), ou se acham excluídas ou odiadas pelo grupo maior, quando de fato o conflito é causado originalmente pela atitude da própria câmara de eco, sendo que o grupo maior apenas reage às suas ações, reações que podem tomar várias formas, já que o grupo maior não tende a ser mais diverso e aberto à discussões. A câmara de eco pode tentar assumir o controle de posições de poder dentro do grupo maior, para assim tentar atrair mais pessoas para a câmara de eco e ter maior controle dos dissidentes. Em algumas situações, é possível que existam câmaras de eco "escondidas" dentro de outras câmaras de eco;
2-Se a câmara de eco abrange a maior parte dos integrantes do grupo no qual ela está contida, ela sempre tende a tentar tomar o controle do grupo para si, excluindo qualquer pessoa que discorde de suas ideias ou forçando-as a aceitar tais ideias, ameaçando os dissidentes de todas as formas que pode, direta ou indiretamente, de forma aberta ou tácita. Essa tomada de poder resulta do sentimento de superioridade dos integrantes da câmara de eco, ou ao menos do ter plena convicção que suas ideias são as melhores coisas para o grupo. A mesma coisa pode acontecer quando a câmara de eco é uma minoria poderosa, tendo poder suficiente para tentar controlar a maioria.
É importante mencionar que as pessoas que integram uma câmara de eco não são "pessoas ruins". Elas (na enorme maioria das vezes) não são maliciosas. Sua atitude resulta de terem plena e total convicção de que as suas ideias constituem uma verdade incontestável, acima de qualquer crítica ou dissidência. Ou seja, elas estão certas e você, se discordar delas, está errado.
E o que isso tem a ver com o resultado das eleições americanas? Bem, em relação a todo esse pessoal inconformado que o Trump ganhou, tudo e mais um pouco.
O que aconteceu nessas eleições foi a expansão de uma câmara de eco preexistente à níveis mundiais.
A grande parte da mídia internacional e nacional adulou Hillary do começo ao fim. Claro, houve dissidência, mas tudo era, em grande parte, desconsiderado. Os múltiplos escândalos de Hillary, desde as mortes em Benghazi e dos emails até o assedio sexual perpetrado por um de seus principais assessores, foram todos levados "à banho maria" ou mesmo ignorados pela maior parte da mídia, enquanto as doideiras de Trump (que não são poucas, afinal, ele tem seus próprios escândalos) sempre eram manchete. Trump virou o dêmonio racista misógino superhitler anticristo, e Hillary se tornava a própria Ave Maria.
Resultado disso? Apoiadores de Trump, pobres, médios e ricos, qualquer um, foram todos chamados de racistas, haters, caipiras, ignorantes e, nas palavras da própria Hillary "a basket of deplorables" (algo como "um monte de deploráveis", ui). Sim, uma candidata a presidência chamou, ao vivo e a cores, em pleno comício assistido por milhares de pessoas, todas as pessoas que apoiam Trump de deploráveis.
Esse é foi o naipe do discurso de Hillary. Ela não só foi capaz de descer a este nível, mas como foi capaz de superar as próprias palavras dos discursos bombásticos e emocionais de Trump, mas com característico ar de superioridade, como alguém que não estivesse falando de seres humanos, mas de criaturas inferiores.
E incluiu metade do povo americano nessa definição.
Acontece que Hillary, sua campanha, os democratas e seus apoiadores todos tinham plena fé na sua vitória. Tudo virou uma câmara de eco gigantesca, mais parecida com um culto do que com uma campanha política. Tudo a favor de Hillary era ótimo, tudo contra Hillary era o superhitler anticristo da KKK vestido de Dercy Gonçalves usando jequiti carregando uma cruz em chamas.
Assim, os apoiadores de Trump, em grande parte apenas pessoas pobres que procuram emprego, brancas, negras, latinas e asiáticos, etc, se viram não só abandonados pela campanha democrata, mas verdadeiramente excluídos. Tive amigos que foram excluídos de comunidades, forums e tópicos online apenas por dizerem que Hillary era a pior escolha que o partido democrata poderia ter feito. Pessoas foram excluidas de grupos no Reddit por apoiarem Trump, pessoas foram mutadas no Twitter e no Facebook após serem reportadas em massa por apoiadores de Hillary (mesmo sem motivo), e até democratas que preferiam Bernie Sanders no lugar de Hillary foram excluídos de discussões.
Por fim, a grande maioria decidiu parar de perder tempo discutindo e resolveu fazer sua voz ser ouvida nas urnas.
E Trump venceu.
Hillary, com apoio quase total da mídia, de billionarios do Wall Street (hello hello, Soros), e da maior parte da classe média alta urbana americana (que constituem uma parcela bem maior da população do que a brasileira), perdeu feio. E perdeu porque tratou sua campanha como mera formalidade, porque tinha plena fé em sua vitória, assim como todos seus apoiadores.
Hillary e companhia foram vítima da câmara de eco que montaram para eles mesmos.
Nesse mini universo paralelo, tudo parecia pro Hillary.
Mas sabe, meus fio, o maior problema da câmara de eco não é nem que ela cria conflitos sociais enormes e exclusão social.
É porque ela te impede de enxergar a realidade de forma crítica.
É porque ela não te deixa perceber que, sim, existem pessoas que discordam de você.
E ela não te deixa ver que isso, na verdade, é uma coisa boa.
Até a próxima meus fio.






























