quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Identidade, Sociedade e Divisão

Ou: porque temos de parar de julgar as pessoas pelo o que achamos que elas são, e começarmos a julgá-las pelo que fazem.
Meus fio, acho que nem preciso gastar tempo escrevendo esse primeiro parágrafo, mas melhor já deixar isso claro: eu não gosto de falar de política.
A razão é a mesma por trás do porquê eu não gostar de falar de religião.
Toda vez que eu abro a boca para falar de qualquer desses assuntos, alguém me veste de uma coisa ou outra, e param de escutar o que estou falando para repararem em como eu fiquei com as roupas com as quais me vestiram. 
Eu não gosto disso porque, na maioria das vezes, não gostam de como fiquei, passam a me odiar e vão embora. (nota: Confesso, não sou bonito, e agradeço todo dia por ter encontrado uma namorada que, milagrosamente, enxerga tudo perfeitamente, mas parece ser completamente míope quanto à minha pessoa, porque ela diz que eu sou lindo, aquela doida)
Eu também não gosto das poucas vezes que as pessoas gostam de como eu fiquei com as roupagens que me deram, porque isso também as impede de ouvir o que estou falando e verem o que estou fazendo, na maior parte das vezes.
Eu gosto quando as pessoas são indiferentes.
Indiferentes quanto ao que eu pareço ser, mas não quanto ao que estou fazendo, ou ao que estou dizendo.
Vou deixar o texto menos cansativo agora. Serei mais direto.
Na sociedade de hoje, todo mundo adora ter uma identidade, algo que te define de acordo com alguns valores pré-concebidos, como se você usasse uma roupa que mostrasse à todos que tipo de pessoa você é, antes mesmo delas sequer cumprimentarem você pela primeira vez. As pessoas fazem isso voluntariamente, e até se desesperam quando estão confusas quanto ao que elas são. Por isso vemos todos se definindo, "eu sou cristão", "eu sou ateu", "eu sou de direita", "eu sou de esquerda", "eu sou o espirito da Carmen Miranda dançando a macarena", "eu sou o Jeremias da voadora", "eu sou narcoléptico", etc.
Isso não é um problema.
Ter uma identidade é normal, todo mundo se identifica com algo que elas gostam, não há grandes problemas com isso. Ao menos, esse fenômeno, por si só, não causa problemas à civilização ou à sociedade.
As vezes isso pode ser muito bom, porque cria união, e se essa união não for exclusória às coisas que existem foram dela, então isso pode se tornar algo maravilhoso. As melhores organizações e civilizações da história surgiram dessa forma, e se caíram, é porque fugiram dessa prática, ou a executaram mal.
O problema verdadeiro começa quando a sociedade, em sua maioria, começa a definir quais identidades ela gosta, e quais ela não gosta.
Ah, isso sim é um problemão.
Como eu sou besta, eu vou criar um exemplo besta para ilustrar como isso é muito, muuuuito ruim. Aliás, toda semelhança com nosso Brasil é só coincidência mesmo, afinal esse exemplo é aplicável a praticamente toda a sociedade humana moderna em geral.
Melhor ainda, vou fazer isso com ilustrações toscas que eu fiz agora no paint.


Em uma sociedade temos um grupinho, os "barbixas". Os barbixas são pessoas que, apesar de não formalmente integrarem um grupo na melhor acepção do termo, formam um grupo social devido à sua identidade similar. Todos os barbixas tem ideias parecidas, e embora eles discordem de uma coisa ou outra entre eles, no fim das contas a sua identidade é praticamente homogênea no seu estado mais básico. Eles tem hábitos similares, gostam de artistas parecidos, leem coisas parecidas ou idênticas, etc. A sociedade em geral gosta dos barbixas, porque ALGUNS barbixas já fizeram coisas legais para a sociedade no passado, então a sociedade passou a enxergar TODOS os barbixas como pessoas super legais ou, como diz o Tiririca, "meninos lindos".

Devido a isso, muitos barbixas acabam ocupando grandes posições na sociedade, e assim se tornam ainda mais populares. Muitos se tornam formadores de opinião e líderes em geral, mesmo que a gigantesca maior parte deles não tenham nada a ver com os barbixas que, algum dia, ajudaram a sociedade de uma forma ou outra. Alguns barbixas já fizeram coisas ruins, algumas BEM ruins, mas isso é bem escondido e desconversado, algo fácil porque os barbixas são vistos como excelentes pessoas em geral, e usam sua influência para não deixar que essas coisas destruam sua popularidade, escrevendo livros para mudar esses fatos, notícias em jornais, etc.

Beleza, só que a sociedade não é composta só de barbixas, lógico, ou se chamaria barbixedade ou algo besta assim. Os barbixas não compõe nem metade da sociedade, embora pareça que eles sejam os donos de tudo, porque têm grande influência.

No entanto, tem outro grupo que tem similar influencia na sociedade, os "calvos". Os calvos, como os barbixas, não são um grupo formalmente organizado ou definido, mas são agrupados socialmente porque tem ideias similares e gostam de coisas parecidas. Os calvos já foram os mais populares da sociedade, e por isso ocupam vários lugares importantes nela, mas perderam seu lugar para os barbixas, que hoje são os mais populares. Vários calvos já fizeram ótimas coisas pela sociedade, e outros fizeram coisas ruins, mas por hora os calvos são bem vistos em geral, embora essas coisas ruins tenham sido a causa da queda de popularidade que os tirou do primeiro lugar na sociedade.

Acontece que os barbixas e os calvos não se dão muito bem. Por serem muito diferentes e opostos em idéas, os barbixas e os calvos entram em conflito muitas vezes. Os conflitos abalam a sociedade, porque a sociedade gosta dos dois grupos, mas mão é composta de nenhum deles totalmente, nem dos dois juntos somente, sendo que existem vários outros grupos menores. Vamos chamar esses grupos menores de A, B, C e D, pra simplificar.

Muito bem, os barbixas, em lugar de poder na sociedade, começam a perceber que muitos barbixas então começando a fazer coisas ruins, abusando do poder que agora tem. Isso está se repetindo cada vez mais. Os barbixas estão preocupados e tristes com isso. O problema, no entanto, é que eles estão AINDA MAIS preocupados com o fato de que, devido a isso, os calvos vão ganhar popularidade, por se oporem a essas ações ruins dos barbixas. Ainda pior, se os barbixas trabalharem para punir os barbixas que fizeram coisas ruins, eles acham que estarão se enfraquecendo, e ainda ficaram ainda mais incapazes de reagir a uma investida dos calvos.
Mas os barbixas não são bestas (como eu), e sabendo que tem grande poder e influência, usam isso para esconder todas as coisas ruins que estão acontecendo.
Acontece que, nesse processo, o grupo menor "A" acaba sendo prejudicado pelas coisas ruins que os barbixas estão agora escondendo. O grupo "A" tenta conversar com os barbixas sobre as coisas que aconteceram, mas são ignorados e chamados de mentirosos. O grupo "A", embora seja importante para a sociedade, pois faz muita coisa boa junto com os outros grupos, é uma minoria, e não tem poder para impedir os barbixas.

Enfim, os calvos percebem o que está acontecendo, e sendo o maior oponente dos barbixas, ve nisso uma grande oportunidade para retomar seu lugar de primazia na sociedade. Assim, eles questionam os barbixas sobre tudo o que está acontecendo, descobrir os podres dos barbixas e os expõem.
Os barbixas, ultrajados, contra-atacam. Usando seu poder e influência, começam a pintar os calvos de demônios, vilões que odeiam tudo que não seja calvo.

Ai a coisa fica feia. O grupo B, que sempre foi super amigo dos barbixas, e ensinado a acreditar neles desde o berço, ataca os calvos também. O grupo B não sabia dos podres dos barbixas, mas mesmo quando esses são expostos, eles não acreditam, em parte por serem amigos dos barbixas, em parte porque ALGUNS calvos já lhe fizeram algum mau no passado, e em parte porque foram sempre ensinados a gostar dos barbixas. O grupo C fica indignado com a atitude dos barbixas, em parte porque ALGUNS barbixas lhe fizeram mau no passado, e em parte porque eles sempre trabalharam junto dos calvos, e tinham grandes vantagens quando estes eram os primeiros na sociedade. O grupo D não faz porra nenhuma porque, bem, ele nunca teve muito interesse em nada disso.
O grupo A fica desolado, porque os podres dos barbixas os afetaram muito, mas eles tem muito medo de se unirem aos calvos, porque os barbixas são muito fortes, e são cercados de muitos barbixas. O grupo A teme ser eliminado se ele for contra os barbixas, porque são uma minoria fraca, mas também não querem se unir a eles porque foram mal tradados por eles. O grupo A também não confia nos calvos, porque sabem das coisas ruins que eles já fizeram quando eram os primeiros.
Assim, o grupo A tenta ficar neutro, e torce pra tudo acabar bem.

O tempo passa, o conflito se amonta, e no fim das contas, ninguém mais se importa com quem fez o quê. A coisa vira preto no branco, bem contra o mau. Ninguém mais se importa se você é bom ou mau, mas apenas se você é barbixa ou calvo. Não importa quem vença, o grupo A será eliminado, porque o grupo A não é barbixa, nem calvo.
Ta bom, parei. Chega do exemplo besta, mas deu pra entender, né?
Na nossa sociedade, o problema começa quando alguém define algum grupo ou identidade como sendo ruim, seu inimigo, ao ponto que eles se tornam "alvos aceitáveis". Um grupo ou identidade se torna um alvo aceitável quando atacar eles se torna um meio de ascensão social, ou visto como socialmente benéfico. Isso é o pior que pode acontecer com qualquer sociedade.
Outro enorme problema, que geralmente leva ao primeiro, é quando definem outra identidade como boa, amiga de todos, ao ponto que ninguém mais se importa com as ações dessas pessoas. Tudo de ruim que fazem é ignorado ou distorcido para ser bom, e tudo que fazem de bom é agigantado artificialmente, sendo atribuído muito mais mérito do que realmente merece.
E não caia na besteira de que eu estou falando de criminosos. A sociedade não gosta de criminosos por causa de suas AÇÕES. Todos podem e devem ser julgados por suas AÇÕES.
Mas ninguém deve ser julgado pelo que ACHAMOS QUE SEJAM.
Devemos ser capazes de abraçar aqueles que são diferentes, mas praticam boas ações.
Devemos ser capazes de condenar aqueles que são similares a nós, mas que cometem crimes.
Ou, pra ficar mais simples: condene os criminosos, abrace os inocentes, independente de quem ou o quê sejam, e de você gostar deles ou não (ou deles gostarem de você ou não).
Quanto a mim, bem, eu não sou ninguém. Acho que sou uma besta. Gosto de pensar que um dia serei alguém, ou alguma coisa.
Mas o que eu realmente espero é que um dia eu deixe de ser algo ou alguém.
Não para ser nada, pois é impossível "ser nada", é contraditório, porque o nada não é nada.

Um dia, espero apenas "Ser".

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